Saturday, December 16, 2006

Dream Theater 3...

Você pode achar que é mentira, mas eu não gostava de gostar da maneira como ele me tratava. Essa babação de amigos me deixava confusa em relação às intenções dele. Decidi que não deveria sentir essa atração e que eu poderia muito bem destinguir o que é amizade, o que é atração e o que é amor. Eu achava que sentia amor, mas era atração e me obrigaria a saber que é amizade.
Comecei a namorar. Retomei um namoro antigo. Pablo. Gostava dele. Gostava. Gostaaaaava. Particípio passado do verbo gostar (na verdade, nem sei se é particípio passado), não presente. Mas eu era uma atriz, não? O Pablo sempre gostou do meu jeito, dos meus olhos, dos meus cabelos. Eu sempre gostei do jeito como ele me tratava, do jeito que pegava meus cabelos e cheirava, do jeito como ele me olhava. Eu sei que sem a pessoa, o jeito não é nada, mas, pra mim, o Pablo era só um jeito. Não uma pessoa que carregava uma personalidade. Era como um personagem e eu não prdcisava de mais UM.

- Pablo, quero falar com você - disse, quando completávamos um mês do re-namoro.
- Diga, meu anjo.
- Não sei se é isso que eu quero... Tenho medo de machucar alguém. Você sabe que eu estou tentando retomar o nosso namoro, que tenho vontade, mas que não posso afirmar que dará certo, né? - falei isso com o maior cuidado.
- Claro que eu sei disso. MAs deixa eu te lembrar uma coisa. Nunca demos certo, porque você nunca quis dar certo. Mas agora é diferente... Você quer. - pegou minhas mãos, beijou o peito delas, me olhou e beijou-me a face.

Eu queria, por um momento, dizer a ele que nada daquilo era verdade. Que ele estava fantasiando algo que não existia... Mas, então, eu acordei e percebi que não era ele quem fantasiava. Era eu que o fazia acreditar que nosso namoro amoroso e estável seria possível outra vez.

OBS.: Pra mim, namoro estável é sinônimo de chatice. Bom mesmo, é amor que dá voltas. Que termina, que volta, que briga, que chora... Que muda.

Eu sei que no fim das contas, eu conseguia namorá-lo e lembrar do JP sempre. Eu o beijava pensando no JP, jantávamos e eu via o JP na minha frente, estávamos um dentro do outro, e eu estava dentro do JP. Não dava mais pra ser assim. Tinha suportado isso durante 8 meses... Isso! Há oito meses eu estava com o Pablo, sem reclamar. Aliás. Sem reclamar, sem ter opinião, sem decisões, sem vida. Apática.
Ele se mostrou, com o tempo, uma pessoa agressiva. Quando eu tentava impôr algo, ele agia com rispidez; me maltratava. Começava a me dominar com aquele jeito bruto. Terminava que eu tinha medo de dizer algo e levar uma patada. Porque ele era um cavalo.

- Pablo, eu não quero ir. É uma festa de gente chata, música chata, ambiente chato. Não quero ser chata também, mas a ir em um lugar desagradável como esse, eu prefiro ficar em casa. - impus minha decisão. Sutilmente, mas impus.
- Mas você não tem querer. É a festa de 68 anos do meu pai, e você vai ter de ir. Me acompanhar, meu amor. - falou-me com um ar feio.
- Mas eu já me decidi. Você pode ir sozinho, eu não vou ligar. Você pode ir. Eu vou ficar aqui em casa. Meus pais foram ao cinema e já devem estar voltando.
- Vai se arrumar, Sophia.
- Não vou.
- Estou ficando estressado. - me disse, cerrando os dentes, olhando-me como se fosse me matar.
- EU não vou. - falei, cerrando os dentes, olhando-o como se fosse uma arma.

Me puxou pelo braço, me jogou no chuveiro gelado. Eu reagi. Empurrei-o com os pés, corri pro banheiro do quarto dos meus pais. ME tranquei. Ele arrombou a porta. Me segurou firmemente pelos braços e me gritava como se estivesse possuído. Eu chorava desesperada... Pensava que ia morrer. Corri do quarto para a cozinha, atrás de algo que pudesse intimidá-lo. Só achava coisas que pudessem matá-lo e isso eu não queria. Ele me jogou na mesa da cozinha, queria me ter. Não! Não! Eu não deixaria alguém tão sujo me agarrar e tirar minha roupa como se eu fosse um animal. Ou pior, um objeto. Pra ele, era isso que eu deveria ser.

Me jogou de costas na bancada ao lado da pia. Dentro dela, havia uma faca grande. Chorando, sofrendo e arrancando toda a raiva que eu tinha, segurei a faca com força e, com a mão ereta girei-a pra trás para assustá-lo. Consegui assustá-lo. Seus olhos estavam esbugalhados... Vermelhos como os de um lobo... Minhas mãos também estavam vermelhas, mas não era ilusão... Era sangue! Ao virar, ele veio ao meu encontro com a calça desabotoada e pronto pra me atacar... A faca passou amolada e certeira pela sua jugular... Se eu quisesse acertar, não acertava! Mas abriu um mar de sangue que se espalahava por todo meu corpo... Um sangue sujo e grudento, que me rotulava uma assassina, mesmo sem culpa, mesmo sem intenção.

Naquela noite eu ficaria acordada. Meus pais me ofereceram ajuda. Que eu fosse até a delegacia e relatasse tudo o que houve. Que eu jogasse minha carreira pelo ralo... Que eu simplesmente chegasse na delegacia; que visse um escrivão, um delegado, alguns depoentes e eu... " Delegado Ponte, eu tenho um depoimento a fazer. Eu assassinei meu namorado a pouco."

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