Thursday, December 14, 2006

Dream Theater 2...

- "E que abram as cortinas... O espetáculo vai começar!" - Ficou bom?
- Acho que não... Isso é mais usado em circo. Você vai apresentar um monólogo - falou o JP.
- JP, não começa com estereótipos, por favor. O monólogo não é meu? Então, eu posso fazer o que quiser, sem me preocupar com o que vão pensar, ok? - disse, numa pergunta afirmativa.

Ele me olhou com cara de quem diz: "se não queria opinião, pra quê perguntou?". Mas eu não liguei. Ele sempre fazia aquela cara, mesmo.

- Acha melhor eu começar pela prostituta? - perguntei e o vi fazendo a mesma cara - Tá bom, tá bom... Desculpa, vai! Eu estou nervosa. Não vou mais desdenhar da sua opinião. Prometo.

E fiz aquela cara que toda mulher sabe fazer... Ele não resistiu. Quem resistiria?=P

Ensaiamos a tarde inteira naquele teatro mal feito, escuro, mal cheiroso e insuportável. Mas eu estava ali com o meu melhor amigo, ensaiando a minha primeira peça, meu primeiro monólogo, minha primeira apresentação financeira. Mas o real objetivo era a minha realização interior. JP me acompanhava em tudo. Lanche, teatro, cinema, faxina... Tudo. Eu o conheci na faculdade e viramos grandes amigos. Ele esbanja charme e simpatia... Nunca tivemos nada. NEm um beijinho. A mente maliciosa dos humanos sempre dizia que ele era "a fim" de mim, ou eu dele. Mas de onde vem a expressão "estar a fim de"? Vem de "finalidade"... E eu não quero ninguém que me veja como final. Lógico que a finalidade que a expressão exerce nas frases (ou nas cantadas...) é algo bom. Tipo, "estar a fim de" é ter aquilo como objetivo, finalidade. Mas eu não quero isso pra mim. Quero que alguém se apaixone por mim de verdade. Quero um caminho inteiro percorrido pra mim e não apenas uma finalidade.
Mas, voltando ao JP... Ele é a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

- Sophia, você acha que eu posso fazer algo com você na nossa próxima peça? - falou JP.
- Acho que sim. Você tem talento. E eu sou uma estrela, né? Aqui nesse palco cheio de insetos, eu sou uma estrela. Ai, JP, queria que você me acompanhasse nesse de agora. Sinto tanta falta de você... Você me acostumou mal indo a todos os lugares comigo! =P
- Pára, né? Você consegue e sabe disso. Faltam exatemente 8 minutos e 57 segundos pra aquela cortina se abrir e você começar a se apresentar. Você é a melhor atriz da universidade e vai arrasar. Vamos ver se você vai ficar nervosa com isso...

Chegou mais perto e me beijou. Na boca. Juntou seus lábios aos meus, e num toque aveludado passou a sua língua suave perto da minha e começamos um beijo bom.

- Tá vendo? Sem nervosismo? Eu sou seu melhor amigo e você não ficou nervosa quando eu te beijei. Não vai ficar com mais nada. - disse ele, segurando minhas mãos.

Eu ri. Por um segundo achei que ele me amasse como mulher, não como amiga. No segundo seguinte, acordei.Não sei porquê ele fez isso, mas eu sei que eu gostei... E fui pro palco flutuando.

1 - Prostituição

- Prostituta? Sim, e porque eu gosto. Não pelo dinheiro, não por necessidade, não por pressão. Eu gosto de ser desejada, de ser maltratada, de ser o centro das atenções. Eu acho que as pessoas devem ser o que gostam e eu vim pra São Paulo ser prostituta. Algumas pessoas já me perguntaram porque eu não recusava o dinheiro, então? Não. Nunca. Isso é um trabalho. COm diversão e prazer, claro. Mas o advogado também gosta do que ele faz, a médica também, o empresário também. E nem por isos abrem mão do dinheiro que ganham no fim do mês.

Sentei no palco e abri as pernas. Senti que o JP olhou mais fundo.

- Um dia conheci o homem da minha vida. Bonito, trabalhador, honesto, gentil, inteligente. Sempre saía comigo. Numa noite, me disse que queria ficar comigo de verdade. Eu amei isso! Tínhamos tudo a ver, combinávamos... Até o dia que ele me disse que ía me tirar "dessa vida". Que vida? Ser prostituta pra mim era um sonho de criança e eu não via porque deixar o emprego. Seria difícil pra ele, sim! MAs por isso eu achei que ele fosse o homem da minha vida... PEnsei que ele aceitasse o meu emprego. Mas, não... Nunca mais nos vimos. E ele não era o homem da minha vida. Ele não era perfeito.

*****

- Você estava ótima! Como nos ensaios! Ficou tudo ótimo! Naquela hora que vc abre as pernas e senta no chão... Pensei que o povo fosse cair das cadeiras. - comentou JP.

Eu pensei: "não é só porque você quase caiu, que todo mundo tinha de cair!".
MEu deus! O que eu estou fazendo? Falando como se ele fosse " a fim" de mim... Que doente!

- Vamos jantar? Descobri um lugar escondido no shopping que é uma beleza!
- Onde? - perguntei.
- Ahhh! Surpresa! - disse ele olhando pra mim - E eu sei que você adora surpresas! Não precisa dizer, eu observo...

Eu começava a gostar daquilo... Os olhares, os jantares, as observações... Não que nunca tivesse acontecido isso antes, mas de uns dias pra cá eram diferentes. MEu deus, eu não queria que isso acontecesse, mas ele estava se apaixonando por mim... E eu parecia não sentir nada. Mas eu sentia. Eu sei que sim... Mas ele era o primeiro menino que eu não sabia dizer o que estava sentindo. Eu apenas sentia. E não expressava isso.

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